
A Coroa de Sangue é o segundo livro de Madalena Santos situado nas Terras de Corza, um conjunto fictício de reinos com paralelos com a Europa pós-Império Romano.
Narra as aventuras e desventuras de Eiron, um jovem que se vê manipulado nas intrigas do seu tio, monarca absoluto de Ambroc, desde o seu precoce baptismo de sangue até, anos mais tarde, o culminar duma revolução. Mas se a princípio o livro parece centrar-se na sua figura depressa percebemos que o verdadeiro protagonista é Ramgor e a sua ligação com Themisa, pertencente ao misterioso grupo de Guardiãs de Corza. Em paralelo as duas histórias decorrem sob o pano de fundo duma profunda e necessária revolução política e religiosa num dos últimos Poderes de Corza ainda ligados à Monarquia Absolutista numa referência muito directa aos princípios da Revolução Francesa do século XVIII.
Parte do que me atraíra na escrita de Madalena Santos no anterior volume, O Décimo Terceiro Poder, desapareceu neste volume. Neste a escrita é mais directa, menos dada a elaborações e mais contida. O tom extremamente formal em que escrevia, dando um ar mágico de lendas dinásticas foi substituído quase integralmente por uma prosa mais escorreita e directa e apenas nos diálogos, aqui e acolá, desponta esse formalismo.
Por outro lado o que senti falta no anterior volume está neste presente, a saber uma intriga mais elaborada, menos linear e com pontos de vista mais abertos. A isto juntam-se os dois fios narrativos paralelos.
Se por um lado a a simplicidade da história anterior deu lugar a uma maior complexidade de enredo, por outro lado a tarefa da autora ficou sobremaneira mais delicada, e o constante malabarismo entre os dois fios narrativos por vezes embaraça-se quase travando a acção em momentos que se queriam mais dinâmicos.
Embora eu esperasse também uma maior complexidades das personagens, afinal todas se revelam desde o início serem aquilo que parecem, atribuí tal não a um defeito da escrita de Madalena mas sim a uma tendenciosidade minha para esperar que todas ou quase todas as personagens tivessem uma agenda oculta, o que daria azo a traições, enganos e obstáculos ainda maiores na senda dos heróis. Mas se pensarmos que esse nunca foi o intuito de Madalena ainda assim temos perante nós uma personagem de traço frágil, insegura dos seus propósitos e que necessita constantemente do apoio de outros mais experientes. Eiron é um jovem, mais tarde homem, indeciso e pouco seguro, como aliás o próprio epílogo o traça. Desta inexperiência, desta insegurança e desta falta de engenho nascem parte das peripécias e dos entraves que vai ter no decorrer das mais de 400 páginas onde o leitor é levado dum Poder alicerçado na exploração dos pobres a uma revolução que nas páginas finais apenas ainda se adivinha. Eiron é assim a personagem mais complexa, que se destaca mais pelas suas fragilidades do que pelo que efectivamente consegue. Um exemplo do carácter pouco efectivo de Eiron surge, por exemplo, numa das poucas batalhas que sucedem no livro:
“O espectáculo paralisou-o. Os milhares de homens mexiam-se à sua volta, enchendo o ar com diversos sons, muitos deles horripilantes, enquanto o seu olhar continuava fixo. (…) A brisa que se sentia levou-o daquele cenário atroz e levitou-o até um qualquer estado superior. Um homem passou por ele a correr e empurrou um seu ombro para a frente, mas não o desequilibrou nem o trouxe de volta. O seu transe era-lhe agradável. (…) Um estalo seco mas bem dado acordou Eiron, que, surpreendido, encontrou as feições zangadas do Comissário.
- Sede homem, senhor! – gritou o velho, empoeirado mas ainda esperando pelo seu momento de avançar, que não tardou a chegar.”
Se a meio do livro Madalena parece perder algum folêgo narrativo e a escrita se torna deambulatória, os capítulos finais mais do que compensam com um aumento de transição temporal bastante satisfatório que nos faz sentir estar perante um verdadeiro épico revolucionário e com o resolver de várias linhas narrativas numa convergência que não lança mão dos artifícios da coincidência fácil e não tem pejo em nos surpreender com algumas decisões. Sem querer desvendar parte da trama diria que um assunto que até quase ao final pensava que se iria resolver de determinada forma teve uma resolução surpreendente mas que em última análise é a mais correcta dum ponto de vista de realismo e consentâneo para com os carácteres das personagens envolvidas. Se por momentos pensei que Madalena enveredaria pelo facilitismo tal acabou por não acontecer demonstrando que a autora dedica tempo e reflexão tanto à vida interior como às acções das suas personagens tornando-as credíveis num palco ficcionado mas que se pretende o mais realista possível.
Este livro demonstra uma autora ainda em crescimento mas já com uma voz própria e segura com vontade de escrever gestas que não se apoiam no facilitismo dos tropos dos elementos de fantástico de que tanto abusam outros autores numa evidente tentativa de dissimular fracos conteúdos narrativos. Madalena tem uma história para contar e uma visão que persegue inexoravelmente, e nessa viagem consegue transportar-nos, mesmo que apenas por breves horas, a outros mundos que afinal tão semelhantes ao nosso são. E essa é a verdadeira arte dos contadores de histórias. Tornar o invisível, real.