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The Last Hurrah

 

A 10 de novembro de 2004 coloquei aqui o primeiro post.

Mais de dois mil dias depois e duzentos posts a chama que ardia apagou-se há muito. E quando o passatempo e o prazer passam a ser uma responsabilidade, um encargo e um frete só resta dizer basta.

Assim, termina aqui o Câmara Obscura.

A todos que me acompanharam nesta viagem, quer lendo, quer comentando, espero vê-los por aí nos meandros deste grande mundo virtualizado.

E para fechar este ciclo ninguém melhor que o meu poeta favorito e as suas imortais palavras:

I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made:
Nine bean-rows will I have there, a hive for the honey-bee;
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements grey,
I hear it in the deep heart's core.

The Lake Isle of Innisfree – W. B. Yeats

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Arte por painted-bees no deviantArt

* o título deste post é uma referência propositada ao romance de Edwin O’Connor.

A resenha seguinte contém spoilers. Fica avisado.

An Incident at Agate Beach é um conto misterioso e ambíguo e que pode, no meu entender, ter duas leituras: uma seria a leitura literal de que tudo aquilo está de facto a suceder à protagonista, Marsha; a outra leitura é a de que Marsha tem um desequilíbrio mental e propensidade ao fatalismo que a leva ao suícidio, que poderia ser significado pela sua atividade que a distancia do mundo moderno.

A chave para ambas as leituras está no triplo triptíco: três meses, três semanas e três dias; Marsha, o misterioso «rapaz» e a sua não menos evasiva família apenas entrevista a espaços e Jim, condenado a ser preterido pelo amor do irmão evasivo do rapaz e até, imagine-se, pelo bizarro instrutor de karate que o rapaz apelida de «black man» que «luta contra o nevoeiro». O fim deixa o já conhecido sabor agridoce dos leitores que preferem a sua prosa com pontos de fuga.

Um conto em camadas que o leitor tem de decifrar, camada a camada, guiado pela mão segura e escrita onírica de Marly Youmans, originalmente publicado no único número de 2005 da Argosy.

The Mushroom Duchess de Deborah Roggie foi originalmente publicado em Lady Churchill’s Rosebud Wristlet 17, o que logo à partida me predispôs para um conto de qualidade. Aliás não posso deixar de recomendar veementemente esta revista semestral que pela amplitude, qualidade regular e sentido de descoberta é uma referência no Fantástico.

Roggie conta-nos o percurso duma duquesa de Turing cujo passatempo é a micologia incluindo os seus usos medicinais e outros menos agradáveis nas fisiologias humanas. A meio do conto Gracinet, a nora, cai nas más graças da duquesa e em breve tudo o que pronuncia gera em quem a rodeia o mais profundo desgosto e repúdio ao ponto da pobre coitada se resignar ao silêncio. Até que um dia…

Escrito numa veia cómica, de humor negro, o conto é uma típica história de feitiço contra feiticeiro que nos demonstra que ser impopular por vezes não é a opção política mais acertada. Um conto em moldes cómicos mas com tradição moralista que me agradou sobremaneira. Infelizmente a informação sobre a autora é bastante escassa apenas se sabendo que prepara o seu primeiro romance sendo que fica a vontade de conhecer mais.

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The Year’s Best Fantasy and Horror – 2006 – Nineteenth Annual Collection, editado por Ellen Datlow e Kelly Link & Gavin J. Grant

O «companheiro» de Year’s Best Science Fiction, estas antologias durante anos representaram o melhor que o campo do Fantástico e Horror tinha para oferecer em língua inglesa. Com a mudança de editores na 16.ª edição em que Terri Windling saiu para dar lugar a Kelly Link e Gavin J. Grant soube-se que em 2008 a antologia foi colocada num hiato.

Assim sendo venho agora resenhar, conto a conto e usando um post único para cada conto, as antologias de 2006 e 2007.

Todos os volumes incluem a abrir apanhados do que de mais interessante (ou o que os editores consideraram mais interessante ou tiveram acesso) se fez no passado ano no campo da Fantasia e do Horror com destaque para os livros mas com colunas próprias para media, novelas gráficas, anime e manga, música e até um obituário. Todos os volumes fecham com as menções honrosas onde se mencionam contos que não foram incluídos por razão de falta de espaço mas que os editores aconselham.

No caso desta 19.ª edição as colunas são assinadas por Kelly Link e Gavin J. Grant para a Fantasia; Ellen Datlow para o Horror; Edward Bryant para a media; Charles Vess para as novelas gráficas; Joan D. Vinge para o anime e manga; Charles de Lint para a música e os obituários por James Frenkel. No total estes resumos somam mais de 110 páginas de conselhos, dicas e caminhos novos a explorar pelo entusiasta dos géneros.

O primeiro conto, Walpurgis Afternoon, é assinado por Delia Sherman e foi originalmente publicado em The Magazine of Fantasy Science Fiction em dezembro de 2005.

Delia Sherman traz as suas sensibilidades pessoais para a construção dum conto algo previsível, povoado por acontecimentos estranhos num bairro conservador. Quando um casal de lésbicas se muda – aparentemente trazendo consigo a própria casa – para o lote de terreno ao lado da sua casa, Evie tem de conciliar as suas opiniões dum mundo exacto e preciso com a ideia de que talvez haja mais no universo do que aquilo que o olho apercebe.

O ponto de viragem ocorre quando recebe um convite para assistir ao casamento das novas vizinhas. No decorrer da festa que, pela escrita de Sherman, me recordou alguns momentos cinemáticos de Buñuel, Evie apercebe-se de que ela e a filha são mais do que supunham ser. Não que isso altere por demais o status quo já que um pacto de silêncio se forma entre os elementos femininos, uma característica muito típica da ficção feminista que tenta afastar o elemento masculino das decisões e o apresenta como barreira ou elemento disruptor dum qualquer pacto.

E assim termina o conto duma forma algo insatisfatória. Não foi, certamente, das melhores escolhas para abrir a antologia.

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A Coroa de Sangue é o segundo livro de Madalena Santos situado nas Terras de Corza, um conjunto fictício de reinos com paralelos com a Europa pós-Império Romano.

Narra as aventuras e desventuras de Eiron, um jovem que se vê manipulado nas intrigas do seu tio, monarca absoluto de Ambroc, desde o seu precoce baptismo de sangue até, anos mais tarde, o culminar duma revolução. Mas se a princípio o livro parece centrar-se na sua figura depressa percebemos que o verdadeiro protagonista é Ramgor e a sua ligação com Themisa, pertencente ao misterioso grupo de Guardiãs de Corza. Em paralelo as duas histórias decorrem sob o pano de fundo duma profunda e necessária revolução política e religiosa num dos últimos Poderes de Corza ainda ligados à Monarquia Absolutista numa referência muito directa aos princípios da Revolução Francesa do século XVIII.

Parte do que me atraíra na escrita de Madalena Santos no anterior volume, O Décimo Terceiro Poder, desapareceu neste volume. Neste a escrita é mais directa, menos dada a elaborações e mais contida. O tom extremamente formal em que escrevia, dando um ar mágico de lendas dinásticas foi substituído quase integralmente por uma prosa mais escorreita e directa e apenas nos diálogos, aqui e acolá, desponta esse formalismo.

Por outro lado o que senti falta no anterior volume está neste presente, a saber uma intriga mais elaborada, menos linear e com pontos de vista mais abertos. A isto juntam-se os dois fios narrativos paralelos.

Se por um lado a a simplicidade da história anterior deu lugar a uma maior complexidade de enredo, por outro lado a tarefa da autora ficou sobremaneira mais delicada, e o constante malabarismo entre os dois fios narrativos por vezes embaraça-se quase travando a acção em momentos que se queriam mais dinâmicos.

Embora eu esperasse também uma maior complexidades das personagens, afinal todas se revelam desde o início serem aquilo que parecem, atribuí tal não a um defeito da escrita de Madalena mas sim a uma tendenciosidade minha para esperar que todas ou quase todas as personagens tivessem uma agenda oculta, o que daria azo a traições, enganos e obstáculos ainda maiores na senda dos heróis. Mas se pensarmos que esse nunca foi o intuito de Madalena ainda assim temos perante nós uma personagem de traço frágil, insegura dos seus propósitos e que necessita constantemente do apoio de outros mais experientes. Eiron é um jovem, mais tarde homem, indeciso e pouco seguro, como aliás o próprio epílogo o traça. Desta inexperiência, desta insegurança e desta falta de engenho nascem parte das peripécias e dos entraves que vai ter no decorrer das mais de 400 páginas onde o leitor é levado dum Poder alicerçado na exploração dos pobres a uma revolução que nas páginas finais apenas ainda se adivinha. Eiron é assim a personagem mais complexa, que se destaca mais pelas suas fragilidades do que pelo que efectivamente consegue. Um exemplo do carácter pouco efectivo de Eiron surge, por exemplo, numa das poucas batalhas que sucedem no livro:

“O espectáculo paralisou-o. Os milhares de homens mexiam-se à sua volta, enchendo o ar com diversos sons, muitos deles horripilantes, enquanto o seu olhar continuava fixo. (…) A brisa que se sentia levou-o daquele cenário atroz e levitou-o até um qualquer estado superior. Um homem passou por ele a correr e empurrou um seu ombro para a frente, mas não o desequilibrou nem o trouxe de volta. O seu transe era-lhe agradável. (…) Um estalo seco mas bem dado acordou Eiron, que, surpreendido, encontrou as feições zangadas do Comissário.

– Sede homem, senhor! – gritou o velho, empoeirado mas ainda esperando pelo seu momento de avançar, que não tardou a chegar.”

Se a meio do livro Madalena parece perder algum folêgo narrativo e a escrita se torna deambulatória, os capítulos finais mais do que compensam com um aumento de transição temporal bastante satisfatório que nos faz sentir estar perante um verdadeiro épico revolucionário e com o resolver de várias linhas narrativas numa convergência que não lança mão dos artifícios da coincidência fácil e não tem pejo em nos surpreender com algumas decisões. Sem querer desvendar parte da trama diria que um assunto que até quase ao final pensava que se iria resolver de determinada forma teve uma resolução surpreendente mas que em última análise é a mais correcta dum ponto de vista de realismo e consentâneo para com os carácteres das personagens envolvidas. Se por momentos pensei que Madalena enveredaria pelo facilitismo tal acabou por não acontecer demonstrando que a autora dedica tempo e reflexão tanto à vida interior como às acções das suas personagens tornando-as credíveis num palco ficcionado mas que se pretende o mais realista possível.

Este livro demonstra uma autora ainda em crescimento mas já com uma voz própria e segura com vontade de escrever gestas que não se apoiam no facilitismo dos tropos dos elementos de fantástico de que tanto abusam outros autores numa evidente tentativa de dissimular fracos conteúdos narrativos. Madalena tem uma história para contar e uma visão que persegue inexoravelmente, e nessa viagem consegue transportar-nos, mesmo que apenas por breves horas, a outros mundos que afinal tão semelhantes ao nosso são. E essa é a verdadeira arte dos contadores de histórias. Tornar o invisível, real.

Segundo os editores:

Antologia é uma revista semestral de contos que nasce da vontade de criar um espaço digno para este género.

Tem como objectivo a publicação de inéditos de autores portugueses contemporâneos, não deixando de publicar, sempre que oportuno, autores clássicos ou estrangeiros. Não se restringe a um registo: tanto poderá encontrar nas suas páginas um conto realista como um de ficção científica. É generalista, sem, no entanto, perder de vista a qualidade, o seu único critério.

O conto é um género de difícil execução, sendo por isso uma óptima oficina de escrita. Uma revista é o campo ideal para o exercício deste tipo de ficção. Ao contrário do romance, o conto tem uma limitação de espaço, exigindo ao autor uma forte disciplina, uma noção clara de equilíbrio e autocontrolo. Um conto bem escrito é um objecto literário quase perfeito.

A Antologia é feita para autores e leitores, aliando o exercício da escrita ao prazer da leitura.

Para seguir no site.

Um projecto

No fórum Bad Books don’t Exist começa a esboçar-se a ideia de um projecto de recuperação digital dos clássicos da ficção científica portugueses, bem como de outras obras dentro dos géneros de Horror e Fantástico, que numa primeira fase se designam conjuntamente por ficção especulativa.

Faço aqui a chamada de atenção para quem quiser seguir de perto o projecto. Clique aqui para ir directamente ao tópico.

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De pequenos passos se faz o caminho.

O anúncio pela NASA da descoberta do micróbio GFAJ-1 capaz de se sustentar com uma dieta de arsénio, até hoje considerado venenoso para a vida terrestre, abre as portas para um mais amplo leque de hipóteses na procura pela vida extraterrestre.

A ciência faz-se assim, de pequenos mas seguros passos.

Para saber mais nada como visitar o texto disponível no site oficial da NASA.

best_25Este portentoso volume com mais de 600 páginas é a visão de Dozois sobre o género de FC e durante anos foi incontornável como a referência a seguir por quem nutre interesse pela forma curta da FC. No entanto, com novos competidores a surgirem entre eles antologistas do calibre de Jonathan Strahan, Hartwell ou Horton, Dozois começou a perder algum do brilho que tinha. Uma das razões que me leva a pensar que estas colectâneas já não representam tanto o género nem sentem o pulso actual está patente na longa summation do campo em que Dozois, em retrospectiva, falha praticamente todas as previsões acerca de prémios futuros (à data a que escreve) e correntes literárias.

Apesar disso estas colectâneas continuam a ter o seu peso (pun intended) no meio e para quem não tenha nem o tempo, nem a disponibilidade de seguir todas as publicações periódicas anglo-americanas (com algumas de outras latitudes pelo meio), são uma boa forma de se manter em contacto com o que de melhor – e menos bom – se vai escrevendo no género no formato que para alguns estudiosos e entusiastas melhor descreve o género, o conto curto.

A qualidade mediana do volume é algo afectada pela presença entre os 32 contos de pérolas lado a lado com pólvora seca. Dos contos menos interessantes nada direi preferindo apontar o holofote aos que se destacam por uma larga margem da semi-mediocridade dos restantes. Uma nota curioso é que, para a minha sensibilidade a maior parte das pérolas veio da mão de escritoras o que para mim é uma novidade porque até há uns sete, oito anos atrás raras eram as que me cativavam dentro do género.

O primeiro conto na sequência do índice a fazer blip no radar é “Alien Archeology” de Neal Asher a que não deve ser estranho o facto de eu adorar contos sobre artefactos e enigmas alienígenas. Este conto apresenta a marca registrada de Asher na escrita veloz, trepidante e com mais ideias num parágrafo que muitos romances de 400 páginas. É uma verdadeira montanha-russa de emoções e tensão existente no mesmo universo criado pelo autor para as suas famosas novelas.

Logo de imediato vem aquela que é para mim a melhor noveleta de todo o tomo, “The Merchant and the Alchemist’s Gate” de Ted Chiang que com toda a justiça arrebatou os prémios Hugo e Nebula de 2008 para melhor noveleta. Uma história de amor contada em mosaico com toda a amplitude de emoção e num pungente agridoce só possível nos melhores contos as “viagens” no tempo são tratadas não como um fim em si mesmo  para a obtenção fácil seja do que for mas um obstáculo quase uma maldição que pesa sobre os protagonistas. Extremamente bem escrita, duma delicadeza a toda a prova esta noveleta é leitura essencial e altamente recomendável.

“Sanjeev and Robotwallah” de Ian McDonald é outro exemplo da escrita do autor ambientada em locais menos usados dentro da FC. Embora aqui e ali o folclore local pareça dar ares duma certa visão ocidental sob uma realidade que lhe é estranha, McDonald nunca tropeça por inteiro no facilitismo do cliché descrevendo o arco de ascensão e queda dum protagonista que se vê embrenhado numa guerra que adquiriu contornos de videojogo. Interessante e a obrigar a ler River of Gods.

Ler agora “Hellfire at Twilight” de Kage Baker trás a bagagem emocional da morte abrupta da autora que pela amostra tinha ainda muito para oferecer à comunidade. “Hellfire…” é mais um conto da Companhia que em tom ambíguo nos descreve um ritual pagão com as consequências marginais para o agente que se vê deificado sem de tal se aperceber. O conto por sí funciona muito bem na descrição da atmosfera duma Londres do século XVIII com o bónus de oferecer algo mais a quem conheça previamente a “Companhia”.

“Nothing Personal” de Pat Cadigan demonstra que esta senhora ainda tem algo a dizer dentro do sub-género cyberpunk, e em contraste com o outro emir do cyberpunk também presente neste volume, Bruce Sterling, leva-lhe o palmarés do conto mais interessante e melhor estruturado sendo que é conveniente lê-lo com bastante atenção para apanhar todos os fios do novelo algo intrincado que a autora vai tecendo ao longo da narrativa.

“Laws of Survival” de Nancy Kress é um conto duro com uma protagonista que de incialmente impermeável a qualquer emoção além da mera sobrevivência se vai tornando por força da sua pouco usual situação mais humana, e a pouco e pouco revela a fragilidade no cerne do seu coração. Algo previsível mas suficientemente bem escrito para agarrar a atenção este é daqueles contos de fim em aberto que eu tanto aprecio.

“Craters” de Kristine Kathryn Rusch é o último conto duma senhora nesta colectânea pelo que o rácio de contos interessantes definidos pelo sexo dos autores se equilibra igualitariamente. Tempos houve em que se eu conseguisse encontrar um conto duma autora nestas antologias de Dozois que mexesse comigo já podia considerar-me com sorte. Se isso é sinal duma evolução estética e de sensibilidade minha ou demonstra outra coisa é algo que deixo para reflexões futuras. “Craters” está perigosamente perto da realidade actual para se definir como FC mas ainda assim é um estudo de caracterização bastante bem conseguido.

O último conto de interesse para mim vem pela mão de Robert Reed, autor que sempre me cativou. “Roxie” é um pequeno estudo emocional e afectivo da ligação dum escritor com o “melhor amigo do Homem” passado com o cenário de fundo duma potencial catástrofe planetária. Bem mais interessante  e tocante que os mega-efeitos especiais de 2012 ou Impacto Profundo é assim que todos os contos de pré-apocalipse deviam ser: pessoais, íntimos e profundamente emocionais. Recomendado.

Como escrevi no início, Dozois parece ter perdido o pulso do género em que grande parte das escolhas deriva das mesmas fontes. No entanto e curiosamente nas honorable mentions que fecham o tomo demonstra que tem leituras bem mais abrangentes pelo que é pena que não consiga oferecer um espectro mais abrangente de tudo de bom que o género tem hoje para oferecer ao leitor discernente. Pelo que a leitura deste tomo não invalida, para os interessados e apreciadores, uma leitura da «concorrência» na forma dos “best of” de todos os outros antologistas e de Strahan e Hartwell em particular.

walking_dead_2Neste segundo volume hardcover de The Walking Dead que reúne os fascículos #13 a #24, temos dois novos capítulos naquela que se define como “a continuing story of survival horror”. Com esta premissa a lembrar as radionovelas de antigamente, Kirkman e Adlard mostram o dia-a-dia do grupo de sobreviventes que conhecemos dos dois anteriores capítulos desvendando a pouco e pouco a personalidade de cada um bem como as alterações causadas pelo peso dos acontecimentos. Nestes dois novos capítulos a taxa de mortalidade continua elevada com algumas personagens principais e secundárias a encontrarem a morte das mais variadas, e a mais das vezes horrífica, forma mas vamos por partes.

O terceiro capítulo, “Safety Behind Bars” começa onde o anterior terminara. O pequeno grupo de sobreviventes decide instalar-se na prisão mas antes vai ter de proceder a uma limpeza sendo que a cada vez que inicia uma tal operação as munições têm uma quebra significativa. Rick Grimes começa a mostrar o preço que a constante pressão pela sobrevivência tem sobre ele e Lori, pelo seu lado, começa a ter dúvidas acerca da sua relação com ele. Duas personagens secundárias, Chris e Julie porão em curso o seu plano fatal com consequências graves para o pai de Julie que se cruzarão com a queda psicológica de Rick Grimes. Por outro lado Allen começa a mostrar sinais de recuperação embora seja uma recuperação em tons fatídicos.

Neste capítulo são introduzidos quatro novos protagonistas que servirão para despoletar consequências gravosas na pequena comunidade. A presença de quatro ex-prisioneiros servirá para criar um clima de permanente tensão e uma aparente injustiça será o catalisador duma situação insustentável que levará Rick Grimes a contradizer a sua única regra: «You kill, you die».

O traço de Adlard é inconsistente embora a nível de composição seja um mestre. Mas essa mestria não é suficiente para eu sentir a tempos algum amadorismo incompreensível num projecto desta envergadura.

Já o guião de Kirkman começa a mostrar sinais de desenvoltura fugindo aos clichés habituais do género, ao ponto de a certa altura os zombies passarem para segundo plano sendo um fundo panorâmico para um estudo profundo da personalidade humana e da sua muito curiosa característica de trazer sempre ao de cima em situações extremadas ou actos de bravura ou actos de perfídia do mais insidioso possível.

No capítulo quatro, “The Heart’s Desire”, somos apresentados a Michonne que viaja com zombies de estimação que vimos a saber mais tarde serem o ex-namorado e o amigo do ex-namorado. Adepta da katana e perita em despachar rápida e eficientemente qualquer zombie que a atrapalhe, Michonne será uma das razões para a crise entre Grimes e Tyreese e para já surge neste capítulo como uma protagonista enigmática que a um tempo consegue ser antipática, e noutro parece querer integrar-se no pequeno grupo. O iminente esgotamento nervoso de Grimes começa a tomar contornos cada vez mais claros assim que os acontecimentos se atropelam após um ataque que deixa Allen incapacitado. Hershel, que Grimes resgatara da quinta, enfrenta os seus próprios dilemas que atingiram o pico nos acontecimentos macabros do capítulo anterior e curiosamente é precisamente no volte-face de Grimes em relação a Allen que Hershel volta a uma proactividade mais salutar. O inevitável confronto que já se vinha a desenhar – passe a piada – entre Tyreese e Grimes tem o seu clímax no final do capítulo sendo que no denouement Grimes é informado da sua despromoção de líder para uma posição igualitária num comité. Neste mesmo final Carol exprime os seus sentimentos por Grimes, enquanto Lori cada vez mais se afasta dele. Uma nova crise adivinha-se em capítulos futuros.

No geral achei este dois capítulos mais ambiciosos a nível de dramatismo humano mas a frio a história pouco evoluiu e alguns dos acontecimentos parecem demasiado deus ex-machinas que apenas servem o enredo ao contrário de ser o enredo a servir-se deles. Exemplo disso é a mudança demasiado radical da personalidade de um dos ex-presidiários bem como o desejo de vingança pouco racional de outro deles. A esta percepção mediana que tenho da série não ajuda que o traço seja demasiado inseguro ao ponto de algumas feições serem quase irreconhecíveis de painel em painel dificultando a minha imersão no universo da série. Para já e se fosse meu hábito dar estrelinhas  de classificação daria duas e meia em cinco a esta série.